A recente polêmica envolvendo apresentações do Fasc 2025 dentro da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos reacendeu um debate que deveria ser tratado com a seriedade que o tema exige: até onde a arte pode ir quando ocupa um espaço sacro? A depender do que foi cantado, encenado ou performado, a escolha de utilizar o interior de um templo como palco artístico pode, sim, configurar um desrespeito — e até vilipêndio — à casa de Deus.
Não se discute aqui a importância da cultura, tampouco o valor das expressões artísticas. A questão central é o local escolhido. A igreja, para os cristãos, não é apenas um prédio histórico, um espaço cênico ou uma sala com boa acústica. É um ambiente consagrado, regido por rituais específicos, dogmas milenares e um sentido profundo de sacralidade. Ali, cada gesto, cada palavra, cada som assume outro peso. O espaço não é neutro; ele carrega simbolismos espirituais que o diferenciam de qualquer outro.
Por isso, ainda que a intenção dos organizadores do festival possa ter sido positiva — integrar cultura, aproximar público, valorizar o patrimônio — a ideia não se sustentou. A casa de Deus tem peculiaridades, exigências e limites que não podem ser desprezados em nome da criatividade ou do encantamento artístico. E qualquer atividade que ignore essa realidade corre risco de ofender a fé, a liturgia e as tradições cristãs.
Quando a arte desvirtua o espaço santo
É preciso reconhecer que boa parte da população se posicionou contra o uso da igreja para as apresentações do festival. Para muitos, o desconforto não foi com a arte em si, mas com a inadequação do ambiente. Não é o palco certo para tudo. Não é o cenário apropriado para qualquer tipo de música, performance ou discurso.
E isso não se trata de conservadorismo ou intolerância, mas de coerência com aquilo que a própria igreja representa. Assim como não se realiza uma missa dentro de um teatro, não se deveria transformar um templo em vitrine cultural sem critérios rigorosos — ainda mais sem considerar a sensibilidade do público fiel.
Arte e fé podem dialogar, mas não à custa da integridade do sagrado. Há fronteiras que, quando ultrapassadas, deixam marcas. E neste caso, ao que tudo indica, o festival passou por cima de uma delas.
Que a discussão sirva ao menos como alerta: nem todo espaço cultural é espaço religioso, e nem todo espaço religioso pode ser tratado como cultural. Há diferenças — e elas precisam ser respeitadas.


