Por Alexandre Silva Cardoso
O Carnaval é uma das maiores celebrações populares do país — dias de alegria, música, encontros e muita energia nas ruas. Mas, do ponto de vista médico, também é um período em que alguns riscos à saúde aumentam por causa do calor, aglomerações, mudanças de rotina, consumo de álcool e poucas horas de sono.
A boa notícia é que, com medidas simples e planejamento, dá para aproveitar a folia com mais segurança.
Principais riscos à saúde no Carnaval (e por que eles aumentam):
Desidratação e exaustão pelo calor:
Em blocos e festas ao ar livre, é comum passar horas sob sol, em locais cheios e com pouca ventilação. Isso favorece desidratação, queda de pressão, cãibras, mal-estar e até insolação.
Sinais de alerta: sede intensa, tontura, fraqueza, dor de cabeça, náuseas, urina escura, confusão, pele muito quente.
Intoxicação alcoólica e mistura com outras substâncias:
O álcool é uma das causas mais frequentes de atendimentos no período. O risco aumenta com consumo rápido, “misturar bebidas”, ficar sem comer e, principalmente, associar álcool a energéticos ou outras substâncias — combinação que pode mascarar sintomas e levar a decisões perigosas.
Sinais de alerta: vômitos repetidos, sonolência excessiva, desmaio, respiração lenta, confusão, convulsões.
Infecções respiratórias em aglomerações:
Multidões e ambientes fechados favorecem a transmissão de viroses respiratórias (resfriados, gripes e outras infecções). Quem tem asma, bronquite, DPOC ou imunidade mais frágil tende a sofrer mais.
Doenças gastrointestinais e intoxicação alimentar:
Comer na rua é parte da rotina do Carnaval, mas aumenta a chance de diarreia, vômitos e infecções alimentares, sobretudo com alimentos mal armazenados, maionese/cremes fora da refrigeração e água de procedência duvidosa.
ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) e gravidez não planejada:
A combinação de festa, álcool e impulsividade pode reduzir a percepção de risco. ISTs (como sífilis, gonorreia, clamídia, hepatites virais e HIV) e gravidez não planejada são eventos evitáveis com prevenção adequada.
Lesões, quedas e acidentes:
Aumento de entorses, cortes, quedas, brigas, acidentes com vidro e, fora da festa, o risco grave de acidentes de trânsito por dirigir após beber.
Reações alérgicas e irritações (maquiagem, glitter, fantasias):
Maquiagens, colas, tintas corporais e glitter podem causar dermatites, irritação ocular e alergias. O glitter comum também pode machucar os olhos se houver contato direto.
Piora de doenças crônicas e saúde mental:
Mudança brusca de rotina pode descompensar pressão alta, diabetes, gastrite/refluxo, enxaqueca e transtornos de ansiedade. Privação de sono e excesso de estímulos podem desencadear crises em pessoas vulneráveis.
Medidas de prevenção práticas (o que funciona na vida real):
1) Hidrate-se e respeite o corpo
- Beba água regularmente (não espere ter sede).
- Alterne: 1 dose de álcool → 1 copo de água.
- Prefira roupas leves e faça pausas em locais ventilados.
- Evite longos períodos sob sol direto; use boné/chapéu.
2) Coma antes e durante a festa
- Não “segure” a fome para beber: isso aumenta risco de intoxicação.
- Priorize alimentos bem cozidos e preparados na hora.
- Desconfie de alimentos com cheiro/consistência alterados ou expostos ao calor.
3) Proteja-se de infecções
- Lave as mãos sempre que possível ou use álcool em gel.
- Se estiver com sintomas respiratórios, evite aglomeração e ambientes fechados.
- Mantenha vacinas em dia (especialmente se você faz parte de grupo de risco).
4) Sexo seguro: prevenção é parte da diversão
- Use preservativo do início ao fim (leve o seu).
- Evite decisões importantes sob efeito de álcool/drogas.
- Se houver relação desprotegida, procure orientação o quanto antes sobre medidas pós-exposição (quando aplicáveis, o tempo faz diferença).
5) Sol, pele e olhos: cuidado com “detalhes” que viram problema
- Use protetor solar e reaplique se suar muito.
- Evite contato de glitter/cola com os olhos; prefira produtos próprios para uso facial.
- Se houver ardor ocular importante, dor ou visão turva, procure atendimento.
6) Redução de danos com álcool
- Estabeleça um limite e não beba com o estômago vazio.
- Não aceite bebida já aberta e não deixe seu copo sem supervisão.
- Evite misturar álcool com energéticos ou medicamentos sedativos.
7) Transporte seguro: regra de ouro
- Se beber: não dirija. Combine motorista da vez, transporte por app ou táxi.
- Caminhe em grupo, especialmente à noite, e tenha um ponto de encontro combinado.
8) Monte um “kit saúde” do folião
- Água, lanche leve, protetor solar, álcool em gel, curativos, remédios de uso contínuo, preservativos e um documento com contato de emergência.
Quando procurar ajuda médica imediatamente
Procure atendimento se houver:
- desmaio, confusão mental, convulsões
- falta de ar, chiado intenso, dor no peito
- febre alta persistente, rigidez de nuca;
- vômitos incoercíveis ou sinais de desidratação importante;
- reação alérgica com inchaço de lábios/rosto ou dificuldade para respirar;
- cortes profundos ou sangramento que não cessa.

Alexandre Silva Cardoso, Especialista em Ginecologia e Obstetrícia, especialista em Medicina fetal, Especialista em Medicina de família e comunidade, Pós-graduação em docência para o ensino superior, Escritor do capítulo de Malformações Esqueléticas da 1° edição do livro Medicina Fetal do IMIP, Mestrando em saúde da família pela UFS, Médico de família e comunidade da Secretaria de Saúde de Aracaju, Médico intervencionista do SAMU 192 Sergipe, Preceptor do internato do curso de medicina da UNIT Sergipe no estágio de Medicina de Família e Comunidade, Facilitador do Curso de Especialização em Medicina de família e comunidade do Programa Mais Médicos do UNA/SUS.



